sexta-feira, 10 de julho de 2020

PLANO DE ESTUDO TUTORADO 1 - SEMANA 1 - 3º ANO EM - FILOSOFIA


OS VALORES: SER E DEVER SER
“Sêneca viveu em Roma no período denominado Helenismo, datado entre o século IV a.C. até III d.C. Sabe-se que Sêneca foi um dos principais filósofos estóicos do mundo latino e o Estoicismo uma escola filosófica que teve uma longa trajetória histórica. Diz-nos Sêneca:

Devemos igualmente mostrar docilidade e não ser escravos demais das resoluções que tomamos; ceder de boa vontade à pressão das circunstâncias e não temer mudar, seja de resolução, seja de atitude, contanto que não caiamos na versatilidade, que é de todos os caprichos o mais prejudicial à nossa tranquilidade. Porque se a obstinação é inevitavelmente inquieta e deplorável, visto que a fortuna lhe arranca a todo momento qualquer coisa, a leviandade é ainda muito mais penosa, porque ela não se fixa em nada. Estes dois excessos são funestos à tranquilidade da alma: recusar-se a toda alteração e nada suportar. (SÊNECA. Da tranquilidade da alma. São Paulo: Abril Cultural, 1973)

Para entender melhor o que nos diz Sêneca é bom esclarecer o que seja fortuna e versatilidade. Fortuna é uma divindade romana responsável pela sorte, pelo acaso e pelo imprevisto. Os gregos a chamavam de Tique. Para a filosofia adota-se o termo acaso. O acaso é para os estóicos um erro ou ilusão, pois entendiam que tudo acontecia no mundo por necessidade racional. Portanto, para os estóicos em tudo o que acontece há uma razão, pois nada é visto como acaso.

Observe que entre nós é comum o entendimento da fortuna como sinônimo de sorte. É bom destacar que para Sêneca o conceito de fortuna e acaso são distintos e claro que também para os demais filósofos, sobretudo os modernos e contemporâneos.

O outro conceito que precisamos esclarecer é o de versatilidade. Observe que no texto de Sêneca possui um caráter negativo, ao passo que para nós a versatilidade é algo positivo. Cada vez mais se defende a necessidade de sermos versáteis. No caso do texto de Sêneca podemos substituir o termo versátil por volúvel e assim nos aproximarmos mais da ideia que Sêneca quer nos passar.

Você pôde observar que a recomendação chave de Sêneca está em ‘ceder de boa vontade a pressão das circunstâncias e não temer mudar’. É interessante que Sêneca pressupõe a tranquilidade diante do mundo que nos cerca. É preciso para isso nem cair em obstinação, nem em leviandade.

É preciso lembrar que o momento histórico em que viveu Sêneca foi um momento de ruína do Império Romano. O Império Romano estava em decadência e cada dia mais isso era perceptível aos olhos daqueles que viviam aquele momento, sobretudo os pensadores da época. É nesse contexto de ruína, decadência, que a proposição de Sêneca, uma ética individualista, ou seja, centrada no indivíduo pode ser entendida e explicada.

O que é comum ocorrer com as pessoas em momentos de crises profundas? É a dúvida em relação ao que fazer para sobreviver a ela. E diante de tal dúvida é comum o isolamento e a falta de um ponto de referência que seja claro e que garanta tranquilidade. É comum também as pessoas se angustiarem e passarem a ser atacadas de sentimentos de medo e insegurança.

Então o que Sêneca está procurando oferecer aos seus contemporâneos nada mais é que uma forma de encararem a realidade que os cerca, ou seja, a decadência que ameaça o mundo em que habitam e diante da qual não possuem mais nenhuma certeza.

É claro que para atingir o estado de espírito que Sêneca pressupõe o uso da razão é fundamental, ou seja, o sábio é quem irá conseguir se sobressair diante das vicissitudes.

Um tirano ameaçava o filósofo Teodoro de mandar matá-lo e mesmo privá-lo da sepultura: ‘Tu podes’, disse-lhe este, ‘dar-te este prazer: existem aí 2,7 decilitros de sangue, sobre os quais tens todos os direitos; quanto à sepultura, és estranhamente ingênuo, se crês que me aflijo por apodrecer sobre ou debaixo da terra’. (SÊNECA, 1973, p. 71)

O exemplo acima demonstra uma pessoa que conseguiu chegar a um estágio de controle de suas paixões e emoções de tal forma que assim consegue superar as dificuldades com mais facilidade. Não se pode ignorar que esta capacidade esteja ligada a dimensão racional humana, uma vez que graças à mesma somos capazes de perceber o que nos ameaça.” (SEED-Pr, 2006, p. 108-111)

ATIVIDADES:

1. É possível ser virtuoso em nossos dias seguindo os preceitos de Sêneca? Justifique.
Sim é possível, embora seja difícil, já que a nossa sociedade prega valores bem diferentes dos defendidos por Sêneca. Contudo, é possível buscar uma vida virtuosa, baseada no controle da razão sobre as paixões ou vícios. Uma vida contemplativa acima das ocupações, das preocupações e das emoções da vida comum. Vivendo em harmonia com a razão, ou seja, com a natureza, o sábio estoico irá encontrar a paz da alma (ataraxia) afastando dele tudo o que poderia perturbá-lo, essencialmente as paixões consideradas como movimentos antinaturais, doenças da alma. A verdade que repousa precisamente na ausência de paixão, ou apatia, implica um domínio comum da vontade e do julgamento para aceitar o destino mostrando-se desapegado com relação às coisas e aos homens, como afirmava Sêneca.

2. A partir do que foi estudado do pensamento de Sêneca, o que devemos fazer para sermos felizes? Escreva um texto sobre o tema (mínimo de 10 linhas) levando em consideração nosso contexto atual de confinamento devido a uma pandemia – ou seja, um evento externo que pode nos afligir e demanda uma atitude interna e individual.
O estoicismo afirma que as virtudes devem ser baseadas nos comportamentos ao invés das palavras, ou seja, aja de acordo com o que você acredita e mostre que você é uma pessoa de virtudes; e que nós não controlamos e não podemos depender dos eventos externos, devemos depender apenas de nós e das nossas escolhas.
A prática do estoicismo reside em alguns ensinamentos centrais cujo objetivo é nos lembrar que o mundo é imprevisível — tudo está tranquilo hoje, mas amanhã as coisas podem mudar. O estoicismo também nos lembra de quão breve o nosso tempo é e, portanto, devemos vivê-lo da melhor forma possível; devemos ser firmes, fortes e estarmos no controle de nós mesmos; devemos controlar nossos impulsos (paixões) e confiar na lógica e na nossa capacidade de raciocinar.
Nesse sentido, diante dos acontecimentos atuais, a pandemia e o confinamento, devemos manter-nos tranquilos e serenos e buscar através de nossas ações cotidianas visualizar a possibilidade de melhora da nossa situação atual, e por mais que possa surgir novos problemas, é preciso manter a paz de espírito e a gratidão por tudo de bom que a natureza nos deu.

3. A partir da leitura do texto acima defina o ideal de sábio presente na filosofia de Sêneca.
O estoicismo que se desenvolveu em Roma tinha por característica a noção de uma sabedoria prática, alcançada pela consciência do curso da natureza e que o universo é governado por um logos divino. E dessa consciência que resulta a prática da virtude, já que o sábio é aquele que se conforma com a natureza e age segundo ela. Desse modo, para Sêneca, sábio é aquele que busca a virtude e a perfeição agindo de acordo com as leis da natureza, que corresponde com a razão. A razão é aquilo que possibilita o homem torna-se livre e feliz, sem se apegar aos objetos externos ou se deixar escravizar pelas paixões. É sábio, portanto, aquele que domina as paixões e os sentimentos e age retamente, sendo justo e prudente. Além disso, o filósofo romano entendeu que o sábio nunca deve fechar-se para novos conhecimentos e novas doutrinas, mas manter o espírito aberto a outras possibilidades que possam orientar sua vida e seu caráter moral.