Quem é o ser humano?
“Para Sartre o homem é liberdade. Como
entender essa afirmação? Entende-se que não há certezas e nem modelos que
possam servir de referência, cabe ao homem inventar o próprio homem e jamais
esquecer-se que é de sua responsabilidade o resultado de sua invenção. Pelo
fato de ser livre é o homem quem faz suas escolhas e que ao fazê-las, torna-se
responsável por elas. É por isso que:
O existencialista declara frequentemente
que o homem é angústia. Tal afirmação significa o seguinte: o homem que se
engaja e que se dá conta de que ele não é apenas aquele que escolheu ser, mas
também um legislador que escolhe simultaneamente a si mesmo e a humanidade
inteira, não consegue escapar ao sentimento de sua total e profunda
responsabilidade. (SARTRE, J.P. O existencialismo é um humanismo. São
Paulo: Nova Cultural, 1987, p. 7)
O conceito angústia está relacionado ao
binômio: liberdade – responsabilidade. Faço as escolhas e ao fazê-las sou eu,
exclusivamente eu, o único responsável por elas. É a angústia o sentimento de
cada homem diante do peso de sua responsabilidade, por não ser apenas por si
mesmo, mas por todas as consequências das escolhas feitas. Com a angústia há um
outro sentimento que é fruto também da liberdade: o desamparo. É preciso
lembrar que o conceito de angústia foi desenvolvido pelo filósofo Kierkegaard e
o conceito de desamparo, pelo filósofo Heidegger.
O existencialista, pelo contrário, pensa
que é extremamente incômodo que Deus não exista, pois, junto com ele,
desaparece toda e qualquer possibilidade de encontrar valores num céu
inteligível; não pode mais existir nenhum bem a priori, já que não existe uma
consciência infinita e perfeita para pensá-lo; não está escrito em nenhum lugar
que o bem existe, que devemos ser honestos, que não devemos mentir, já que nos
colocamos precisamente num plano em que só existem homens. Dostoiévski
escreveu: ‘Se Deus não existisse, tudo seria permitido.’ (SARTRE, 1987, p. 9)
O desamparo se dá pelo fato de o homem saber-se só. É
por isso que Sartre diz que ‘(...) o homem está condenado a ser livre’.
(SARTRE, 1987, p. 9) Pois não há nenhuma certeza, não há nenhuma segurança e
tudo o que fizer é de sua irrestrita responsabilidade. De fato o homem, sem
apoio e sem ajuda, está condenado a ‘(...) inventar o homem a cada instante’.
(SARTRE, 1987, p. 9)
Diante da constatação de que ‘(...) somos
nós mesmos que escolhemos nosso ser’. (SARTRE, 1987, p. 12) Surge o outro sentimento:
o desespero. O que marca o desespero é o fato de que:
Só podemos contar com o que depende da
nossa vontade ou com o conjunto de probabilidades que tornam a nossa ação
possível. Quando se quer alguma coisa, há sempre elementos prováveis. Posso contar
com a vinda de um amigo. Esse amigo vem de trem ou de ônibus; sua vinda
pressupõe que o ônibus chegue na hora marcada e que o trem não descarrilhará.
Permaneço no reino das possibilidades; porém, trata-se de contar com os
possíveis apenas na medida exata em que nossa ação comporta o conjunto desses
possíveis. A partir do momento em que as possibilidades que estou considerando
não estão diretamente envolvidas em minha ação, é preferível desinteressar-me
delas, pois nenhum Deus, nenhum desígnio poderá adequar o mundo e seus
possíveis a minha vontade. [...] Não posso, porém, contar com os homens que não
conheço, fundamentando-me na bondade humana ou no interesse do homem pelo bem
estar da sociedade, já que o homem é livre e que não existe natureza humana na
qual possa me apoiar. (SARTRE, 1987, p. 12)
Pelo fato de a realidade ir além,
extrapolar os domínios de minha vontade e de minhas ações, o reino das
possibilidades passa a evidenciar que minha ação deverá ocorrer sem qualquer
esperança. O desespero é, portanto, o sentimento de que não há certezas e
verdades prontas, é o sentimento de insegurança que impregna a vontade e o
agir, pelo fato de ambos serem confrontados com o reino das possibilidades e
apontarem para o limite a liberdade de cada indivíduo.” (SEED-Pr, 2006, p.
149-151)
ATIVIDADES:
1. A exemplo da angústia e desamparo,
próprios de existencialismo, que outros sentimentos podem ser identificados na
realidade dos jovens do século XXI? (SEED-Pr, 2006, p. 151). Podemos encontrar ansiedade, medo, incertezas,
preocupações etc.
2. Que ideias de liberdade são encontradas nas
propagandas de bebidas, carros e motos veiculadas na mídia? (SEED-Pr, 2006, p.
151). As ideias de liberdade que se encontram nas
propagandas estão relacionadas a uma liberdade sem limites e responsabilidades,
muitas vezes traduzindo uma ideia de prazer exagero, onde tudo é permitido, sem
se preocupar com a consequência de seus atos.
3. Diante de tantas ideias de liberdade, somos livres?
Explique. (SEED-Pr, 2006, p. 151). Sim, somos livres. Embora
vivamos condicionados pela ordem (normas) da sociedade, nós somos capazes de
definir e fazer nossas escolhas, de criar o nosso próprio destino. Como afirma
Sartre, é o homem quem escolhe seu engajamento, ou seja, é o homem que faz a
escolha que lhe é possível. A sua liberdade está nas suas escolhas.
4. Elabore um texto que discuta os conceitos:
consciência, liberdade, responsabilidade e determinismo. Caso precisar,
pesquise, pesquise, pesquise... e pesquise mais! (SEED-Pr, 2006, p. 151). A filosofia
existencialista procura analisar o ser humano como um todo. Por isso o ser
humano é um ser dotado de consciência, pois a consciência é
algo peculiar em cada ser humano e nos permite perceber as nossas ações no
mundo e do mundo. Somos também seres de liberdade,
considerando que temos desde o nascer a capacidade para agir e escolher. E
nossas escolhas implicam responsabilidade, pois as escolhas
que fazemos são escolhas que engajam toda a humanidade, visto que a
responsabilidade é o dever de assumir o compromisso de algo ou alguém, de modo
a responder pelos eventuais efeitos. E mesmo que estejamos determinados (o determinismo é
uma corrente teórica que afirma que há um conjunto de condições que determinam
as ações dos sujeitos no mundo) pelos valores de uma sociedade, ainda sim,
somos capazes de ser autênticos e assumir um lugar na dinâmica social. E nesse
sentido, a autenticidade trata-se da percepção de que o que somos é
constantemente modificado pelas nossas escolhas e de que o modo como vivemos é
um compromisso assumido diariamente.
5. Enfim, após leituras e pesquisas, responda a essa
questão ultra-mega-fácil: quem é você? Pessoal.
Fonte: SEE-MG. Acesse: https://estudeemcasa.educacao.mg.gov.br/