PLANO DE ESTUDO TUTORADO – VOLUME 3
SEMANA
1
UNIDADE(S) TEMÁTICA(S): Política,
participação e Movimentos Sociais.
OBJETO DE CONHECIMENTO: Compreender
a relação entre os conceitos de ideologia e Movimentos Sociais.
HABILIDADE(S): Identificar
novas formas de participação política e de exercício da cidadania. Relacionar
processos de modernização e formas de exercício do poder e de dominação.
IDEOLOGIA,
POLÍTICA E MOVIMENTOS SOCIAIS
Carlos
Andrés Otto
Como o próprio nome faz referência os movimentos sociais consistem em grupos de pessoas que se organizam de forma independente frente aos governos, e por vezes em oposição a eles, reivindicando mudanças na sociedade. Isso nos leva às seguintes questões; Por que em uma sociedade democrática, onde os representantes políticos são eleitos pelo povo, determinados grupos sociais sentem a necessidade de se organizar para reivindicar seus direitos? Quais são os limites da atuação desses grupos? Será que qualquer pauta pode ser reivindicada? Em suas militâncias esses grupos podem exigir mudanças sociais que firam as leis do país e retire direitos de outras pessoas?
Para compreender essas e
outras questões é necessário entendermos o contexto em que estão inseridas as
reivindicações trazidas pelos movimentos sociais. Exercício ainda mais urgente
dentro do atual contexto Brasileiro marcado por uma grande polarização
política, onde por vezes, determinados grupos — sejam eles progressistas ou
conservadores, esquerda ou direita — se radicalizam construindo um cenário onde
a maior vítima é a própria democracia e o Estado Democrático de Direito.
Por isso antes de
tratarmos propriamente das pautas defendidas por alguns grupos ligados aos
Movimentos Sociais contemporâneos entendemos como oportuna uma breve retomada
das discussões sobre o conceito de Ideologia. A compreensão desse conceito nos
ajudará a entender como, ao longo da história, várias injustiças foram
naturalizadas pela sociedade e pelo próprio Estado (governo) e como a
organização de pessoas vítimas dessas injustiças se mostrou e se mostra
importante para modificar essa situação.
Mas afinal de contas, o
que é ideologia?
Vocês devem estar ouvindo
e lendo na televisão e nas redes sociais as pessoas falando em fascismo, nazismo,
comunismo, democracia, esquerda, direita, mas o que são essas coisas? A
resposta é ideologias!
Ideologia é um conceito
que possui vários sentidos. O termo foi criado na modernidade com o filósofo francês
Destutt de Tracy, com o propósito de abordar a formação e a construção das
ideias. E que ideias seriam essas? Você já se perguntou de onde vêm as ideias
sobre o mundo em que vivemos?
Nós já sabemos que a
família, a escola, a religião e os meios de comunicação moldam muito dos nossos
comportamentos e do que pensamos, mas isso é feito com alguma orientação? Será
que existe algum interesse dentro dessas instituições em nos ensinar
determinados comportamentos e deixar outros de lado?
A ideologia é justamente
esta visão do mundo, este conjunto de ideias que nos são transmitidas ou que
nós mesmas/os desenvolvemos e que determinam uma forma de perceber o mundo.
Como assim? Calma, o objetivo desta semana é exatamente discutir sobre isso.
Existem muitas formas de se entender o conceito de ideologia, uma dessas formas
é entendê-lo como um conjunto de ideias, noções ou mesmo opiniões que uma
sociedade ou grupo tem sobre um assunto. A ideologia seria como uma “visão de
mundo”, um conjunto de representações, de valores e também de normas de conduta
que indicam como as pessoas de certa sociedade devem agir e pensar.
Como disse a vocês o
conceito de ideologia nasce com o pensador francês Antoine Louis Claude Destutt
de Tracy (1754-1836) que buscou compreender quais os elementos que operam e
interferem na formação das ideias. Assim, o termo ideologia pode ser entendido,
segundo este autor, como a “ciência das ideias”. Depois disso o termo ganhou
novos sentidos. Auguste Comte, filósofo francês, vai utilizar o sentido que
Antoine Louis Claude Destutt de Tracy, aquele de que a ideologia é um conjunto
de ideias, e vai acrescentar que essas ideias são de determinada época. Ou
seja, quando falamos de ideologia, falamos de ideias de um período específico.
Karl Marx, pensador
alemão, vai definir a ideologia como um sistema de pensamentos, reflexo de uma
determinada época, mas, sobretudo como um reflexo dos grupos sociais existentes
e de seus interesses. Então a ideologia para Marx seria usada como dominação de
classe, ou seja, certos comportamentos seriam repassados para a população para
facilitar que as elites econômicas a dominassem.
Conflitos ideológicos e a
manutenção da ideologia dominante
Para além de parecer que
essa discussão sobre ideologia está distante de nós, ela está ao nosso redor o
tempo todo. Sempre que nos relacionamos, exprimimos opiniões e julgamentos,
estamos colocando em ação uma série de pressupostos ideológicos, ou seja,
estamos defendendo uma ideologia.
Quando vivemos e
interagimos em sociedade, estamos seguindo uma lógica e um sistema de
pensamento que nos foi ensinado. A ideologia não é um evento individual ou
mesmo um ato consciente, ela nos cerca através de um esquema maior que podemos
ver quando compramos ideias, valores, conceitos que já existiam anteriormente e
dos quais somos apenas representantes.
Movimentos sociais como
elemento para repensar as ideologias dominantes
Contudo, muitas vezes não
estamos de acordo com a ideologia dominante vigente que se impõe sobre nós, ou
seja, a ideologia que as elites (cultural, econômica, intelectual entre outras)
determinam, e aí podemos pensar em movimentos de ruptura com esse sistema de
ideias dominantes. Se entendermos que o modo de pensar e compreender a
realidade são fruto de um contexto sócio histórico, entendemos que esse modo de
pensar não é estático. Portanto, a ideologia dominante está sujeita à transformação.
E de que forma podemos então lutar contra essa ideologia dominante que nos
controla para servi-la?
Em outros momentos,
aqueles que não estão na posição dominantes se organizam em sindicatos, partidos
políticos ou em movimentos sociais, como o movimento feminista, anticorrupção,
negro, estudantil, etc. E se contrapõem à ideologia dominante. Greves,
contestações, manifestações e passeatas são caminhos de mobilização empregados
por estes grupos e movimentos sociais que buscam abrir espaços na teia da
ideologia dominante. Estes movimentos reivindicam direitos, mas também trazem seus
modos de pensar e entender a vida em sociedade e buscam pela possibilidade de
que outros modos de pensar e viver o cotidiano sejam possíveis, para além daqueles
já instituídos.
Estas disputas não se dão
de forma simples e muitas vezes se expressam em conflitos sociais, pois os
questionamentos realizados pelos Movimentos sociais trazem interrogações a
respeito da organização da sociedade. Porém, os grupos que têm seus privilégios
evidenciados pelas pautas trazidas pelos movimentos sociais estão preparados
para reagir aos conflitos e, por vezes, detêm do seu lado os meios de
comunicação para disseminar suas ideias e o aparato estatal para controlar as
ações contrárias a elas e, portanto pode reforçar e impor sua ideologia sempre
que desejem. É neste sentido que não raras vezes as manifestações e tentativas
de transformação social e discussão da ideologia dominante é taxada de
“baderna”, “confusão” que devem ser controladas ou impedidas. Ao longo da
história podemos perceber a tentativa de criminalizar os movimentos sociais que
denunciavam privilégios e reivindicavam uma sociedade mais justa e democrática.
A busca pela igualdade racial nos Estados Unidos na década de 60, manifestações
por liberdade e democracia na China na década de 80 e a luta por direitos
trabalhistas na década de 20 no Brasil, são exemplos de movimentos que exigiam
direitos básicos para grupos sociais que eram injustiçados e foram duramente reprimidos
na época pelo governo e pelas elites que os taxavam como desordeiros. Nos dias
atuais não são raras as vezes que governos tentam classificar os grupos que
reivindicam mudanças sociais como terroristas. A reação do governo Donald Trump
frente aos protestos de julho de 2020 que denunciavam a violência policial
contra pessoas negras nos Estados Unidos é um bom exemplo dessas estratégias
por parte de governos e elites sociais/econômicas de criminalização dos
movimentos sociais buscando confundi-los com a prática de terrorismo.
Alguns conceitos
importantes
Agora que vocês já
compreenderam sobre o conceito de ideologia e a importância dos movimentos sociais
para lutar contra ideologias que buscam naturalizar as desigualdades presentes
na sociedade, que tal falarmos sobre as características de algumas das
ideologias que comentamos no começo e que estão aparecendo constantemente na
mídia atualmente? Assim vocês poderão entender melhor sobre o que estamos
falando.
O Fascismo, de
forma geral, é um regime autoritário com concentração total do poder nas mãos
de um líder do governo, podendo sua orientação política ser de esquerda ou de
direita. Essa liderança, uma figura quase que paterna ou materna, deveria ser
cultuada/o e poderia tomar qualquer decisão sem consultar previamente os
representantes da sociedade, em outras palavras, ela/e pode tomar decisões mesmo
que as pessoas discordem dela. Além disso, o fascismo defende uma exaltação da
coletividade nacional em detrimento das culturas de outros países.
O Nazismo é um
regime fascista que tem algumas diferenças do que surgiu na Itália, e teve além
da militarização da sociedade alemã, a exaltação do líder e o controle através
da intensiva máquina de propaganda, que utilizava os meios de comunicação para
disseminar as ideias nazistas, sendo a principal delas, o antissemitismo, ódio
aos judeus, que é a visão de uma superioridade do homem branco alemão, a raça
ariana.
O Comunismo é uma
ideologia político econômica que pretende promover uma sociedade mais igualitária,
sem classes sociais baseadas na propriedade comum dos meios de produção.
O Capitalismo é um
sistema econômico baseado na propriedade privada e nos meios de produção com
fins lucrativos.
Cabe lembrar que esses e
outros conceitos ligados à ideologia mudam e mudaram no tempo e espaço, assim
se pegarmos outras palavras que ouvimos e vemos muito, como esquerda e direita,
podemos visualizar melhor essas mudanças. O conceito de esquerda e direita
surge na Revolução Francesa (Séc. XVIII), quando a assembleia de representantes
se reuniu, os representantes das elites aristocráticas se sentaram à direita e
os burgueses, ou comuns, à esquerda. É claro que as pessoas que se sentavam à
direita possuíam uma visão mais conservadora, pois faziam parte do grupo que
obtinha privilégios e assim queriam conservar a sociedade como estava. Já as
pessoas que se sentavam à esquerda eram os grupos dos que exigiam mudanças no
sentido de eliminar privilégios dos grupos dominantes, portanto entendidos como
progressistas.
Ao observarmos a
utilização dos termos esquerda e direita nos dias atuais podemos perceber que esses
conceitos não são aplicados com essa conotação. Na medida em que não faria
sentido algum, no contexto da revolução francesa, uma pessoa que não fosse
membro da elite econômica se considerar de direita e nem membros da classe
média alta e até donos de grandes veículos de comunicação ser nomeados como de
esquerda. Por isso, se torna importante entender a origem desses termos e os
sentidos e propósitos que as pessoas os empregam para que você não seja
facilmente manipulado. Para que isso não ocorra uma dica é “fugir da bolha”, não se restrinja apenas a grupos específicos,
como as redes sociais, para se informar frente a determinado tema, busque
diferentes fontes de informação e se permita escutar todos os pontos de vista
para formar suas opiniões sobre os mais variados temas. Fazendo isso você
estará mais próximo de uma realidade objetiva dos fatos, fugirá da polarização
ideológica e correrá menos risco de ser injusto em seus posicionamentos.
Lembre-se ninguém pode ser considerado dono da Verdade.
1
— (Unisc 2016) Anarquismo
é uma corrente de pensamento com variadas expressões no pensamento filosófico e
político. Os anarquistas têm em comum a defesa da liberdade pessoal, da
participação direta dos cidadãos em todos os assuntos políticos e a recusa às
diferentes formas de autoridade e de governo. São contrários à representação
política e à delegação de poder. Entendem que a ordem social não requer a
existência de governo. Há um segundo sentido do termo, comum na linguagem
popular, em que anarquista significa ser apoiador da desordem e do caos. Dicionário de Filosofia Política,
Editora Unisinos, 2010.
Considerando
o primeiro sentido, próprio do pensamento filosófico e político, assinale a
alternativa condizente com a visão anarquista.
a)
Voto universal e eleições diretas para todos os cargos governamentais.
b)
Cooperativas e sindicatos de trabalhadores.
c)
Organização terrorista anticapitalista, militarizada e hierarquizada, tipo
Al-Qaeda.
d)
Parlamentos livres (de deputados, senadores ou vereadores).
e)
Democracia representativa.
Resposta:
b
2
— (Uem-pas 2015)
Valéria Pilão informa que, por ocasião da Copa do Mundo de 1970, durante a
ditadura militar estabelecida no país, Miguel Gustavo compôs a canção “Pra
frente Brasil”, que incitava:
“Noventa milhões em ação
Pra frente Brasil do meu coração
Todos juntos vamos
Pra frente Brasil
Salve a seleção (...)”
PILÃO,
Valéria. Movimento estudantil. In: LORENSETTI, Everaldo et al. Sociologia:
ensino médio. Curitiba: SEED-PR, 2006, p. 275.
Levando
em consideração o conteúdo do trecho citado e o contexto em que a música foi
elaborada, é correto afirmar que:
a)
o compositor, com suas palavras, dá a entender um descontentamento com o regime
político.
b)
a canção dirige-se à população brasileira, estimulando sentimentos de
grandiosidade nacionalista.
c)
a letra cria uma identificação entre a nação e a seleção, como se a vitória
desta significasse avanço daquela.
d)
o compositor busca estimular os sentimentos críticos dos jogadores e da
comissão técnica, em relação ao momento político vivenciado pelo país.
e)
a letra, apesar de tratar de futebol, tema pelo qual o brasileiro é apaixonado,
fala do assunto de modo imparcial, sereno.
Resposta:
b
3
— (Enem PPL 2015)
Colonizar, afirmava, em 1912, um eminente jurista, “é relacionar-se com os
países novos para tirar benefícios dos recursos de qualquer natureza desses
países, aproveitá-los no interesse nacional, e ao mesmo tempo levar às
populações primitivas as vantagens da cultura intelectual, social, científica,
moral, artística, literária, comercial e industrial, apanágio das raças superiores.
A colonização é, pois, um estabelecimento fundado em país novo por uma raça de civilização
avançada, para realizar o duplo fim que acabamos de indicar”. MÉRIGNHAC. Précis de législation et
d’économie coloniales. Apud LINHARES, M. Y.
A
definição de colonização apresentada no texto tinha a função ideológica de:
a)
dissimular a prática da exploração mediante a ideia de civilização.
b)
compensar o saque das riquezas mediante a educação formal dos colonos.
c)
formar uma identidade colonial mediante a recuperação de sua ancestralidade.
d)
reparar o atraso da Colônia mediante a incorporação dos hábitos da Metrópole.
e)
promover a elevação cultural da Colônia mediante a incorporação de tradições
metropolitanas.
Resposta:
a
4
— (Uel 2006)
“[...] uma grande marca enaltece — acrescenta um maior sentido de propósito à
experiência, seja o desafio de dar o melhor de si nos esportes e nos exercícios
físicos ou a afirmação de que a xícara de café que você bebe realmente importa
[...] Segundo o velho paradigma, tudo o que o marketing vendia era um produto.
De acordo com o novo modelo, contudo, o produto sempre é secundário ao verdadeiro
produto, a marca, e a venda de uma marca adquire um componente adicional que só
pode ser descrito como espiritual”. O efeito desse processo pode ser observado
na fala de um empresário da Internet comentando sua decisão de tatuar o logo da
Nike em seu umbigo: “Acordo toda manhã, pulo para o chuveiro, olho para o
símbolo e ele me sacode para o dia. É para me lembrar a cada dia como tenho de
agir, isto é, ‘just do it’.” KLEIN,
Naomi. Sem logo: a tirania das marcas em um planeta vendido. Rio de Janeiro:
Record, 2002, p. 45-76.
Com
base no texto e nos conhecimentos sobre ideologia, é correto afirmar:
a)
A atual tendência do capitalismo globalizado é produzir marcas que estimulam a
conscientização em detrimento dos processos de alienação.
b)
O capitalismo globalizado, ao tornar o ser humano desideologizado, aproximou-se
dos ideais marxistas quanto ao ideal humano.
c)
Graças às marcas e à influência da mídia, em sua atuação educativa, as pessoas
tornaram-se menos sujeitas ao consumo.
d)
O trabalho ideológico em torno das marcas solucionou as crises vividas desde a
década de 1970 pelo capital oligopólico.
e)
Por meio da ideologia associada à mundialização do capital, ampliou-se o
fetichismo das mercadorias, o qual se reflete na resposta social às marcas.
Resposta:
e
PLANO
DE ESTUDO TUTORADO – VOLUME 3
SEMANA
2
UNIDADE(S) TEMÁTICA(S): Política, participação e Movimentos
Sociais.
OBJETO DE CONHECIMENTO: Conhecer as pautas dos movimentos
sociais que lutam pelos direitos das mulheres.
HABILIDADE(S): Identificar novas formas de participação
política e de exercício da cidadania. Identificar como marcadores sociais as
dimensões étnico-raciais, religiosa, regional, entre outras. Identificar a
concepção de gênero como construção social. Aplicar a noção de alteridade
adotada pela perspectiva socioantropológica. Identificar formas de preconceito,
discriminação, intolerância e estigma.
MOVIMENTOS DE LUTA PELA
EQUIDADE DE GÊNERO
Lorena Carlos Aiala
Você já deve ter ouvido falar, em algum momento da sua vida, sobre o movimento social feminista. Os movimentos sociais são responsáveis por possibilitar que a/o cidadã/ão comum participe da vida política de forma ativa na sociedade em que vive. O feminismo é um movimento social que defende a igualdade de direitos entre homens e mulheres em todos os âmbitos da vida social. Aí você pode se perguntar: Qual o motivo de termos um movimento que reivindica direitos básicos das mulheres? E a resposta para esse possível questionamento é: Vários. Sim, as mulheres têm muitos motivos para reivindicar a igualdade de direitos, uma vez que ao longo da história da humanidade a desigualdade entre elas e os homens se fez, e ainda nos dias atuais, se faz presente e muitas vezes é naturalizada. Dito isto, vamos analisar algumas estatísticas sobre essa desigualdade?
As mulheres são a maioria da população brasileira – 51,7% (PNAD, 2018) –, no entanto a baixa representatividade na política é uma realidade. O nosso estado, Minas Gerais, por exemplo é o 8º com a menor representatividade das mulheres nesta área, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia Estatística – IBGE. Por meio de um levantamento feito pelo Centro de Documentação e Informação da Câmara dos Deputados – Cedi, percebe- se que houve um aumento na ocupação feminina na Câmara dos Deputados no decorrer dos anos, ou seja, houve um aumento no número de mulheres representando a população brasileira. Porém, apesar desse aumento, a participação ainda é de 15% na Câmara dos Deputados e 16% no Senado Federal. Veja no gráfico elaborado em 2019:
Disponível em: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/eleicao-em-numeros/noticia/2018/10/08/no-de-mulhe. Acesso em: 24/06/2020.
A luta para diminuir a violência contra as mulheres é outro fator que motiva e faz parte das reivindicações dos movimentos feministas. E quando se expõe sobre a violência contra mulher, não se limita apenas a violência física, considera-se a violência psicológica, sexual, moral, patrimonial, entre outras. O Brasil é o 5º país no mundo que mais comete feminicídio, ou seja, que mais mata mulheres, ficando atrás apenas da Rússia, Guatemala, Colômbia e El Salvador. A morte da mulher pelo simples fato de ser mulher é a expressão máxima da violência (Garcia, 2013). Veja o mapa:
Disponível em: http://www.cofen.gov.br/12-anos-da-lei-mariada-penha-brasil-e-quarto-noranking-da-violencia-contra-amulher_64758.html. Acesso em: 24/06/2020.
A desigualdade entre homens e mulheres é uma realidade no mercado de trabalho. Isso quer dizer que mesmo exercendo a mesma função, homens e mulheres não recebem o mesmo salário. Uma pesquisa realizada pelo IBGE compara o período entre 2012 e 2018, e por ela podemos ver que a desigualdade salarial diminuiu no decorrer deste período, no entanto as trabalhadoras ganham, em média, 20,5% menos que os trabalhadores. Veja no infográfico a diferença/desigualdade salarial por cargo:
Disponível em: https://g1.globo.com/economia/concursos-e-emprego/noticia/mulheres-ganham-menos-que-os-homens-em-todos-os-cargose-areas-diz-pesquisa.ghtml . Acesso em: 24/06/2020.
Com o acesso a esses
dados quantitativos sobre a representação política, violência e desigualdade no
mercado de trabalho, confirma-se a necessidade de ter um movimento que luta por
igualdade e que amplie a voz e vez para as mulheres, e esses foram apenas três
exemplos. “Os homens dominam coletiva e individualmente as mulheres e esta
dominação se exerce na esfera privada ou pública e atribui aos homens
privilégios materiais, culturais e simbólicos”. Ou seja, essa desigualdade
acontece em todos os âmbitos da vida das mulheres. Dessa forma, não podemos
esquecer que as desigualdades são problemas sociais construídos ao longo da
história e que geralmente favorece um grupo em detrimento de outros.
Você pode pensar que a
atenção esteja muito voltada a esse problema social nos últimos anos, mas o
fato é que um dos primeiros documentos publicados em que se questiona a posição
subalterna da mulher na sociedade tem mais de 200 anos. É importante entender
que o movimento feminista teve grandes marcos e muitas/os autoras/es costumam
dividi-lo em ondas que reivindicavam direitos políticos, igualdade social,
direitos civis, liberdade de reprodução (uso de pílulas anticoncepcionais),
maternidade, entre outros.
Além disso, é fundamental
compreender que não existe um perfil único de mulher e que há diferenças do que
elas lutam dependendo da sua classe social, raça/etnia, orientação sexual,
entre outras identidades. Assim sendo, não devemos usar o termo feminismo no singular,
mas sim no plural com o objetivo de abarcar a luta de todas as mulheres.
Exemplos: As demandas de mulheres indígenas não são as mesmas das mulheres que
vivem em um centro urbano, porque elas se encontram em contextos diferentes,
possuem visões de mundo diferentes, têm culturas diferentes, entre outros
aspectos. As reivindicações das mulheres brancas divergem em relação às
demandas das mulheres negras, pois ao relembrar a construção histórica do
Brasil percebe-se que a inserção no mercado de trabalho, questionada por
mulheres brancas, por exemplo, não é uma questão para mulheres negras, uma vez
que estas já ocupavam esse espaço, desde a época da escravidão. O tipo de
trabalho ocupado pela mulher negra e a diferença salarial entre elas é também
uma questão que exprime a necessidade de analisar essa desigualdade de maneira
interseccional, ou seja, levar em conta várias categorias, nesse caso, gênero e
raça/etnia.
Então vamos refletir
juntas e juntos: se você acredita que a mulher deva ganhar o mesmo valor que o
homem ocupando o mesmo cargo, que a integridade moral/física/psicológica da
mulher deva ser preservada, ou seja, que a mulher não seja
assediada/estuprada/violentada, se você acha justo as mulheres serem
representadas politicamente, o seu pensamento vai de encontro com valores
básicos dos movimentos feministas.
Como e o quê podemos
fazer para contribuir para que práticas que inferiorizam as mulheres não se perpetuem?
Vou mencionar um exemplo que está em nosso cotidiano e que muitas vezes não
percebemos e/ou não damos a devida atenção: o uso de expressões machistas. Não
podemos esquecer que a linguagem tem poder e por isso, algumas práticas
discursivas contribuem para que a subalternidade da mulher em nossa sociedade
continue.
Vamos aos exemplos práticos?
“mulher no volante, perigo constante”; “você é uma mocinha, aprende a sentar”;
“menina não brinca de luta”; “sabe cozinhar, já pode casar”; “mulher com pelo
parece homem”; “vestido/saia curto demais, tá pedindo...”; “mulher não gosta de
homem, gosta é de dinheiro”; “é muito bonita pra ser inteligente”; “uma mulher
só é completa quando tem filhos”; “tá gorda demais”; “tá magra demais”; “mulher
não sabe jogar futebol”; “mulher age com emoção e não com a razão”; “mulher
falando palavrão é feio”; “mulher e carro: quanto menos rodados melhor”. E aí?
Você conhece, já ouviu ou usou alguma dessas expressões? Que tal contribuir
para uma sociedade menos desigual, menos violenta? É necessário o entendimento
que homens e mulheres são diferentes, mas essas diferenças não podem ser
transformadas em desigualdades.
1
— (UFG 2014) Leia o texto e analise a figura a seguir.
Em
1991, a renda média das brasileiras correspondia a 63% do rendimento masculino.
Em 2000, chegou a 71%. As conquistas comprovam dedicação, mas também
necessidade. As pesquisas revelam que quase 30% delas apresentam em seus
currículos mais de dez anos de escolaridade, contra 20% dos profissionais
masculinos.
Tendo
em vista o texto e o implícito no discurso iconográfico, percebe-se:
a)
as diferenças na valorização da força de trabalho entre os gêneros e a
ampliação das demandas das mulheres na luta pelo reconhecimento social.
b)
a queda da taxa de fecundidade, elevando a renda feminina, e os tabus da
adequação a padrões de beleza vigentes.
c)
a alteração do perfil das trabalhadoras que se tornam mais velhas, casadas e
mães e a participação das mulheres no movimento feminista.
d)
a classificação do trabalho doméstico contabilizado como atividade econômica e
a continuidade de modelos familiares tradicionais.
Resposta:
a
2 — (ENEM 2013)
Na
imagem, da década de 1930, há uma crítica à conquista de um direito pelas
mulheres, relacionado com a:
a)
redivisão do trabalho doméstico.
b)
liberdade de orientação sexual.
c)
garantia da equiparação salarial.
d)
aprovação do direito ao divórcio.
e)
obtenção da participação eleitoral.
Resposta:
e
3 — Escreva um pequeno texto sobre o que entendeu da figura abaixo e aponte possíveis explicações para os dados que foram apresentados.
Observamos
na figura uma comparação da situação da mulher negra em relação à mulher branca
na hierarquia racial. Analisamos o quanto a situação da mulher na sociedade é
difícil e que a condição da mulher negra é ainda mais difícil comparada à
mulher branca, isso tudo faz referência a própria história da mulher negra na
sociedade, marcada pelo racismo e pela marginalização social. Diante desse
quadro, as possibilidades e oportunidades de uma mulher branca é bem maior do
que de uma negra em todos os campos sociais.
PLANO DE ESTUDO
TUTORADO – VOLUME 3
SEMANA 3
UNIDADE(S)
TEMÁTICA(S): Política, participação e Movimentos
Sociais.
OBJETO
DE CONHECIMENTO: Conhecer as pautas do Movimento Negro e a
sua luta em busca da equidade racial no Brasil e no mundo.
HABILIDADE(S): Identificar novas formas de participação política e de exercício da cidadania; Identificar como marcadores sociais as dimensões étnico-raciais, religiosa, regional, entre outras; Aplicar a noção de alteridade adotada pela perspectiva socioantropológica; Identificar formas de preconceito, discriminação, intolerância e estigma.
O MOVIMENTO NEGRO
Lucas de Brito Hill
O movimento negro no Brasil é formado por várias organizações,
iniciativas, coletivos e pessoas que compartilham entre si a luta contra o
racismo e as reivindicações de direitos e por condições de vida digna para a
população negra do país. A pluralidade do movimento negro expressa a
diversidade regional, cultural, religiosa e ideológica da população negra do
Brasil. Com isso, podemos falar de movimentos negros no plural. Para muitos de
seus integrantes e apoiadores a resistência negra contra a histórica opressão
vivida por essa população começou assim que a primeira pessoa vinda do continente
africano, escravizada, pisou nas nossas terras.
A População Negra
No Brasil, de acordo
com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), cerca de 56% da
população é constituída por pretos e pardos, o que faz com que tenhamos a maior
população negra fora da África. Isso se deve ao enorme contingente de
Africanos(as) que chegaram nessas terras na condição de escravizados, e
contribuíram por meio de seus saberes e tecnologias para o desenvolvimento
econômico e cultural do Brasil.
Como sabemos, o
processo de escravização é uma vergonha histórica que explorou de forma brutal o
povo negro e que após muitos movimentos de resistência e lutas, findou-se no
Brasil em 1888. Mas a população negra sofre suas consequências até os dias de
hoje, pois aos negros não foram garantidos quaisquer direitos em relação à
terra, trabalho remunerado e educação, ficando essa população à margem da
sociedade brasileira. Uma das principais consequências desse processo foi a
construção de uma cultura dominante com valores racistas que inferioriza e
desconsidera a humanidade dessa população, negando-lhe o acesso a direitos
fundamentais como saúde, habitação, empregabilidade, estudos, lazer e até a
distribuição de renda e terra, o que alocou a maioria da população negra na
base da pirâmide social.
O Racismo Estrutural
Dizer que o racismo é
estrutural significa dizer que a estrutura da sociedade (seu imaginário, sua
mentalidade, suas ideologias, suas relações de poder, suas leis, seus costumes,
suas instituições, seu Estado, sua cultura, a forma como a sua história é
contada) é historicamente estruturada pelo racismo. Pensemos brevemente na
forma como a elite e o Estado brasileiros, historicamente dominado por europeus
e seus descendentes brancos, tratou e enxergou a população negra do país.
O que uma simples
piadinha racista, a preferência por contratar pessoas brancas numa entrevista
de emprego, a imposição do padrão de beleza branco e a brutalidade policial
contra a população negra têm em comum? Todas são produzidas por uma sociedade
racista e ao mesmo tempo produzem essa sociedade racista. Mas como assim?
Simples, se eu penso e ajo de forma racista, eu educo quem vem depois de mim a
pensar e agir de forma racista e essa pessoa educa a próxima da mesma forma e
assim por diante. Dessa forma, através da história vai se estruturando uma
sociedade racista. Sem reflexão, esse ciclo se reproduz pelas gerações sem fim
e estrutura a sociedade de forma racista. Eis o racismo estrutural.
O genocídio da população negra
Mas se a maioria da
população brasileira é negra e se é a maior população negra do mundo fora da
África, porque as estatísticas revelam tantas desigualdades raciais? No Brasil
o corpo negro ainda é visto na ótica do colonizador, que rejeitou e buscou desumanizar
o negro por sua aparência, criando estereótipos de marginalidade, violência e
fealdade para essa população.
No Brasil são
assassinados cerca de 23.000 jovens negros entre 15 e 29 anos por ano. É como
se um jovem negro morresse a cada 23 minutos! Morrem quatro vezes mais jovens
negros do que jovens brancos. Esses números mostram que um genocídio da
juventude negra está em curso no Brasil.
Cerca de 56% da
população brasileira concorda com a afirmação de que “a morte violenta de um jovem
negro choca menos a sociedade do que a morte de um jovem branco”. Isto revela
como a morte da população negra é naturalizada no Brasil, vista como algo
normal.
Como temos acompanhado
nos noticiários e pelas redes sociais ultimamente, a questão racial também
envolve a violência policial contra a população negra. A recente morte do
estadunidense George Floyd pelas mãos de policiais fez viralizar a campanha
#BlackLivesMatter (#VidasNegrasImportam). Apesar das diferenças entre os E.U.A
e o Brasil, é possível perceber algumas semelhanças envolvendo a histórica
questão racial. O baile de Paraisópolis, a menina Agatha, os “80 tiros” são
exemplos da violência a que a população negra do país está exposta. Existe no
nosso país a criminalização da cor e da pobreza. O gráfico abaixo mostra as
diferentes porcentagens do total de alunos negros e brancos nas universidades.
Em 2018, 36,1% dos estudantes eram brancos enquanto apenas 18,3% eram negros.
Até mesmo nas novelas da Globo a participação de atores e atrizes
negros e brancos é bem diferente. Entre 1995 e 2014, em média, 90% dos
personagens foram representados por atrizes/atores brancos e apenas 10% por
negros. Essas estatísticas refletem as consequências do racismo estrutural da
nossa sociedade e é contra esse quadro que as lutas e reivindicações dos
movimentos negros se colocam.
O Movimento Negro, suas lutas e
conquistas
A resistência, a luta e
a reivindicação pela garantia de direitos da população negra atravessam toda a
história do nosso país. Um dos primeiros focos de resistência foi o surgimento
dos quilombos no começo da colonização. Formadas por africanos e seus
descendentes, essas comunidades eram aguerridas e independentes. Sua
existência era uma afronta ao poder colonial por inspirar a revolta contra o
sistema escravista.
O Quilombo dos
Palmares, ou Angola Janga (Pequena Angola), como seus fundadores africanos o
chamavam, foi o mais famoso dos quilombos. Ele resistiu por quase cem anos a
muitos ataques dos portugueses e holandeses. Zumbi e Dandara dos Palmares foram
suas últimas lideranças e hoje simbolizam a luta histórica pela liberdade e
dignidade da população negra no Brasil. O Dia da Consciência Negra, 20 de
novembro, foi escolhido pelo movimento negro por ser a data em que Zumbi dos
Palmares foi executado pela Coroa portuguesa.
Houve muitos levantes e
revoltas mobilizados pela população negra na luta contra a escravidão, por
direitos e melhores condições de vida. Para citarmos apenas algumas, tivemos: a
Conjuração Baiana (1798), a Balaiada (1838-1841), a Revolta dos Malês (1835), a
Revolta da Chibata (1910). No final do século XIX, o processo da Abolição da
Escravidão (1888) envolve a participação de vários abolicionistas negros como o
advogado Luís Gama, o engenheiro André Rebouças, a escritora Maria Firmina,
entre vários outros.
Resistência não
acontece apenas pelas armas e insurreições, mas também pela cultura. Em 1944, o
artista e político Abdias Nascimento funda o Teatro Experimental do Negro que
formou artistas negras/ os e produziu peças de teatro com o objetivo de
fortalecer a consciência da negritude brasileira e combater a discriminação
racial.
A partir da década de 1960 o movimento negro brasileiro recebe a influência internacional dos movimentos negros dos EUA, com seu Movimento pelos Direitos Civis, e do continente africano, com suas lutas por independência e contra a segregação racial.
Entre os anos 1960 e 1980 acontecem muitos protestos e
manifestações públicas, fortemente reprimidas pela Ditadura Civil-Militar, das
quais surge o Movimento Negro Unificado (MNU), uma das atuais organizações do
movimento negro brasileiro.
É importante destacar que o Movimento Negro é um movimento
político e educador, onde identidades são fortalecidas e reivindicam seus
espaços na sociedade, valorizando saberes, cultura e historicidade. O movimento
Negro brasileiro é marcadamente envolvido pelas demandas educacionais, lutando
pelo acesso e permanência da população negra nas escolas, assim como a revisão
dos currículos para que incluam a história da África e da cultura
afro-brasileira em todos os níveis de ensino.
ATIVIDADES:
1
— (Enem 2016) “A demanda da comunidade afro-brasileira
por reconhecimento, valorização e afirmação de direitos, no que diz respeito à
educação, passou a ser particularmente apoiada com a promulgação da Lei
10.639/2003, que alterou a Lei 9.394/1996, estabelecendo a obrigatoriedade do
ensino de história e cultura afro-brasileiras e africanas.”
Diretrizes
Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Etnicorraciais e para o
Ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana. Brasília: Ministério
da Educação, 2005.
a)
aumento da renda nacional.
b)
mobilização do movimento negro.
c)
melhoria da infraestrutura escolar.
d)
ampliação das disciplinas obrigatórias.
e)
politização das universidades públicas.
Resposta:
b
2
— (UFU 2010) O movimento negro no Brasil, embora
exista de fato desde a Colônia, teve seus avanços reais constituídos em
políticas públicas a partir dos anos 1990. Sobre as bandeiras, ações
afirmativas e conquistas deste movimento, é INCORRETO afirmar que:
a)
tornaram possível a obrigatoriedade do ensino da história e da cultura
afro-brasileira nas escolas de ensino fundamental e médio.
b)
pretendem contribuir para diminuir a distância socioeconômica entre negros e
brancos no Brasil e um dos mecanismos para que isso ocorra é a instituição de
cotas para negros na universidade.
c)
relacionam-se a um movimento de políticas de identidade étnico-racial que
denuncia a democracia racial brasileira como um mito.
d)
pretendem indenizar economicamente os descendentes de escravos negros no
Brasil.
Resposta:
d
3
— (Enem 2016) “O Movimento Negro Unificado (MNU)
distingue-se do Teatro Experimental do Negro (TEN) por sua crítica ao discurso
nacional hegemônico. Isto é, enquanto o TEN defende a plena integração
simbólica dos negros na identidade nacional “híbrida”, o MNU condena qualquer
tipo de assimilação, fazendo do combate à ideologia da democracia racial uma
das suas principais bandeiras de luta, visto que, aos olhos desse movimento, a
igualdade formal assegurada pela lei entre negros e brancos e a difusão do mito
de que a sociedade brasileira não é racista teriam servido para sustentar,
ideologicamente, a opressão racial.”
COSTA, S. Dois Atlânticos: teoria social, antirracismo, cosmopolitismo. Belo Horizonte: UFMG, 2006 (adaptado).
No
texto, são comparadas duas organizações do movimento negro brasileiro, criadas
em diferentes contextos históricos: o TEN, em 1944, e o MNU, em 1978. Ao
assumir uma postura divergente da do TEN, o MNU pretendia:
a)
pressionar o governo brasileiro a decretar a igualdade racial.
b)
denunciar a permanência do racismo nas relações sociais.
c)
contestar a necessidade da igualdade entre negros e brancos.
d)
defender a assimilação do negro por meios não democráticos.
e)
divulgar a ideia da miscigenação como marca da nacionalidade.
Resposta:
b
4
—
O racismo estrutural produz um ambiente hostil para a população negra e muitos
são os obstáculos para que ela consiga construir uma vida digna e segura. De
acordo com a sua leitura deste capítulo, escreva o que você entende como sendo o
principal objetivo da política de cotas (reserva de vagas) para pessoas
negras, indígenas, de baixa renda e vindas da escola pública nas universidades públicas
do país. Se necessário, faça uma pesquisa a respeitos das cotas para responder a
essa questão.
O
objetivo das cotas é corrigir injustiças históricas provocadas pela escravidão
na sociedade brasileira e as desigualdades sociais e econômicas que delas
advieram. Um dos efeitos desse passado escravocrata é o fato de negros e índios
terem menos oportunidades de acesso à educação superior e, consequentemente, ao
mercado de trabalho.
As
cotas raciais fazem parte de um modelo de ação afirmativa criado nos anos 1960,
nos Estados Unidos. A proposta era de amenizar o impacto da desigualdade social
e econômica entre negros e brancos. Hoje, apesar da reserva de vagas ser
considerada ilegal nos Estados Unidos, as universidades americanas usam as
ações afirmativas para selecionar alunos negros e hispânicos com potencial.
No
Brasil, o sistema de cotas raciais não beneficia apenas negros, mas pardos e
índios. Há ainda as chamadas cotas sociais, para alunos vindos de escolas
públicas e deficientes físicos, e cotas mistas, para estudantes negros que
estudaram na rede pública de ensino, por exemplo.
PLANO
DE ESTUDO TUTORADO – VOLUME 3
SEMANA 4
UNIDADE(S) TEMÁTICA(S): Política, participação e Movimentos
Sociais.
OBJETO DE CONHECIMENTO: Analisar as pautas dos Movimentos
Sociais que lutam pelos direitos das minorias sexuais.
HABILIDADE(S): Identificar novas formas de participação política e de exercício da cidadania; Identificar como marcadores sociais as dimensões étnico-raciais, religiosa, regional, entre outras; Aplicar a noção de alteridade adotada pela perspectiva socioantropológica; Identificar formas de preconceito, discriminação, intolerância e estigma.
MOVIMENTOS EM DEFESA
DOS DIREITOS DE GÊNERO E SEXUALIDADE
Marcos Ferreira dos Santos Guimarães
Os movimentos sociais em defesa dos direitos de gênero e
sexualidade são um instrumento que busca se organizar em torno de questões
básicas que não são reconhecidas ou garantidas pelo Estado.
Não tratar sobre a diversidade sexual e de identidade de gênero é
não reconhecer o direito do outro. Isso pode levar à estigmatização e à
violência. O Brasil é o país onde mais se notifica assassinatos da população de
lésbicas, gays, bissexuais e transexuais. Essa tarefa tem sido majoritariamente
realizada por movimentos sociais. Dados de entidades que contabilizam esses
números, informam que entre 2011 e 2018 a cada 16 horas uma pessoa foi
assassinada por causa da identidade sexual e de gênero. Foram, em média, 552
mortes por ano nesse período. De 1963 a 2018, foram mortas 8.027 pessoas em
razão da identidade sexual e de gênero.
A falta de diálogo e o
silêncio criam um ambiente de homofobia, que reflete em violência psicológica,
verbal, física, institucional, além de discriminação, negligência, dentre
outras. Dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV) apresentam diversos tipos de
violação de direitos de caráter homofóbicos ao longo dos anos de 2017 e 2018.
O estudo aponta que apesar do alto número de denúncias, há muita dificuldade
em coletar os dados devido à subnotificação (nem toda violência é denunciada).
Por isso, se torna necessário o debate público que traga avanços das
instituições estatais e na própria sociedade para coibir o preconceito e a
discriminação.
Evolução
dos Movimentos pelos Direitos da Livre Expressão Sexual e de Gênero
Antes, no Brasil, falava-se em “movimento homossexual” ou
“movimento gay”. A palavra gay referia-se tanto a homens quanto a mulheres
homossexuais. Ao longo do tempo, isso vem se modificando.
Na década de 1990, por exemplo, falava-se em movimento GLS – que
significava gays, lésbicas e simpatizantes. Depois, vemos a mudança de
nomenclatura para movimento GLBT. Logo após, as letras G e L inverteram de
ordem, ficando LGBT.
Essas modificações ainda
continuam ocorrendo. A proposta é incluir mais pessoas, dando maior pluralidade
e visibilidade às lutas.
Você sabe o que significa cada letra da sigla?
Até determinado momento,
a sigla era composta pelas letras LGBT, onde “L” significa lésbicas, “G” significa
gays, “B” significa bissexuais, “T” significa trans. Com o tempo, o movimento
acrescentou outras letras para agregar mais pessoas que não se identificam com
o padrão heteronormativo (ideia de que apenas os relacionamentos entre sexos
opostos são corretos). Assim, foram surgindo mais letras na sigla e se incluiu
no final o “+”. Este símbolo indica as diversas possibilidades de
reconhecimento e formas de existir na esfera das relações de gênero e
sexualidade.
Revolta de Stonewall: um
marco na luta por direitos
Em 1969, nos Estados
Unidos, ocorreu um marco na luta pelos direitos relacionados ao gênero e à
sexualidade. Naquele tempo, se envolver com pessoas do mesmo gênero era crime
nos Estados Unidos. Também era proibido se vestir em desacordo com o seu gênero.
A polícia fazia batidas pelas cidades para fazer essa fiscalização. Mas, em
Nova Iorque, um bar chamado Stonewall Inn era o ponto de encontro dessa
população, pois ali, os donos do bar tinham um acordo com a polícia (pagavam
propina) para fazer vistas grossas no bar. Porém, no dia 28 de junho de 1969, a
polícia não cumpriu o acordo e invadiu o bar agredindo funcionários e
frequentadores.
Houve reação tanto de
quem estava no bar quanto de quem estava fora; até um princípio de incêndio
aconteceu. Nos dias seguintes, centenas de pessoas voltaram ao lugar para
protestar contra a violência policial e a favor da livre expressão de gênero e
sexualidade. Um ano após o incidente, milhares de pessoas voltaram ao bar e
fizeram a primeira marcha do Dia da Libertação, hoje conhecida como a Parada do
Orgulho LGBT+, que ocorre em todo mundo e no Brasil.
50 anos após a Revolta de
Stonewall, a polícia de Nova Iorque pediu perdão pela repressão ocorrida em
1969. Hoje, a região onde o bar se localiza foi transformada em monumento em
homenagem aos direitos da luta pela diversidade de gênero e sexualidade.
O evento em Belo
Horizonte ocorreu pela primeira vez em 1997 e a cada ano conquista mais
público. Em 2019, participaram do evento 250 mil pessoas. Em São Paulo, todos
os anos o evento ajuda a economia e o setor de turismo. Em 2019, movimentou
mais de R$ 400 milhões, enquanto o público chegou a 3 milhões de pessoas.
ATIVIDADES:
1 — (ENEM, 2010) “Pecado nefando” era
expressão correntemente utilizada pelos inquisidores para a sodomia. Nefandus:
o que não pode ser dito. A Assembleia de clérigos reunida em Salvador, em 1707,
considerou a sodomia “tão péssimo e horrendo crime”, tão contrário à lei da
natureza, que “era indigno de ser nomeado” e, por isso mesmo, nefando. NOVAIS, F.; MELLO E SOUZA
L. História da vida privada no Brasil. V. 1. São Paulo: Companhia das Letras.
1997 (adaptado).
O número de homossexuais
assassinados no Brasil bateu o recorde histórico em 2009. De acordo com o
Relatório Anual de Assassinato de Homossexuais (LGBT – Lésbicas, Gays,
Bissexuais e Travestis), nesse ano foram registrados 195 mortos por motivação
homofóbica no País. Disponível em: www.alemdanoticia.com.br/utimas_noticias.php?codnoticia=3871. Acesso em: 29 abr. 2010
(adaptado).
A homofobia é a rejeição
e menosprezo à orientação sexual do outro e, muitas vezes, expressa-se sob a
forma de comportamentos violentos. Os textos indicam que as condenações
públicas, perseguições e assassinatos de homossexuais no país estão associadas:
a) à baixa
representatividade política de grupos organizados que defendem os direitos de
cidadania dos homossexuais.
b) à falência da
democracia no país, que torna impeditiva a divulgação de estatísticas
relacionadas à violência contra homossexuais.
c) à Constituição de
1988, que exclui do tecido social os homossexuais, além de impedi-los de exercer
seus direitos políticos.
d) a um passado histórico
marcado pela demonização do corpo e por formas recorrentes de tabus e
intolerância.
e) a uma política
eugênica desenvolvida pelo Estado, justificada a partir dos posicionamentos de correntes
filosófico-científicas.
Resposta: d
2 — (ENEM, 2015) O reconhecimento da união homoafetiva levou o debate à esfera pública, dividindo opiniões. Apesar da grande repercussão gerada pela mídia, a população ainda não se faz suficientemente esclarecida, confundindo o conceito de união estável com casamento. Apesar de ter sido legitimado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o reconhecimento da união homoafetiva é fruto do protagonismo dos movimentos sociais como um todo. ARÊDES, N.; SOUZA, I.; FERREIRA, E. Disponível em: http://reporterpontocom.wordpress.com. Acesso em: 1 mar. 2012 (adaptado).
As decisões em favor das minorias,
tomadas pelo Poder Judiciário, foram possíveis pela organização desses grupos.
Ainda que não sejam assimiladas por toda a população, essas mudanças:
a) contribuem para a manutenção da
ordem social.
b) reconhecem a legitimidade desses
pleitos.
c) dependem da iniciativa do Poder
Legislativo Federal.
d) resultam na celebração de um
consenso político.
e) excedem o princípio da isonomia
jurídica.
Resposta: b
3 — Leia os trechos das músicas a seguir:
TEM POUCA DIFERENÇA
Que diferença da mulher o homem tem?
Espera aí que eu vou dizer, meu bem
É que o homem tem cabelo no peito
Tem o queixo cabeludo
E a mulher não tem
No paraíso um dia de manhã
Adão comeu maçã, Eva também comeu
Então ficou Adão sem nada, Eva sem nada
Se Adão deu mancada, Eva também deu
Mulher tem duas pernas, tem dois braços,
duas coxas
Um nariz e uma boca e tem muita
inteligência
O bicho homem também tem do mesmo jeito
Se for reparar direito tem pouquinha diferença.
VIEIRA, Durval. Tem pouca diferença. Disponível em: https://docs.google.com/document/d/1I_ytUXlGGJshG9XPYjQItlunTkWiag9b8FyroOieCP4/edit .
MASCULINO E FEMININO
Ser um homem feminino
não fere o meu lado masculino
se Deus é menina e menino
sou masculino e feminino
Olhei tudo que aprendi
e um belo dia eu vi
Que ser um homem feminino
não fere o meu lado masculino
se Deus é menina e menino
sou masculino e feminino
Olhei tudo que aprendi
e um belo dia eu vi
que vem de lá
o meu sentimento de ser
e vem de lá
o meu sentimento de ser
meu coração
mensageiro vem me dizer
meu coração
mensageiro vem me dizer
salve, salve a alegria
a pureza e a fantasia
salve, salve a alegria
a pureza e a fantasia
GOMES. Pepeu. Masculino e feminino.
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Pz2XmDVeGtU
GENI E O ZEPELIM
De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Com os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir
Joga pedra na Geni!
Joga pedra na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!
(...)
BUARQUE, Chico. Geni e o Zepelim.
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=jWHH4MlyXQQ .
MAR E LUA
Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar
E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
E à beira-mar
BUARQUE, Chico. Mar e Lua. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=HxVk8NWaVTg .
— Após ouvir as músicas acima, faça
uma tabela com os seguintes dados:
— Como homens e mulheres são
representados/as;
— Quais são suas ações, sentimentos e
comportamentos;
— Quais os verbos e adjetivos são
usados para se referir a homens e mulheres;
— Como as relações afetivas são
representadas, como homens e mulheres se comportam nessas relações;
— Quais comportamentos que as músicas estimulam e criticam.
Na primeira música Tem pouca
diferença, o homem e a mulher são representados com pouca diferença,
destacadas nas características físicas, como por exemplo cabelo no peito. Na
segunda música Masculino e feminino, temos por parte do autor uma crítica
ao questionar que problema tem o homem de ser feminino, porque isso não fere,
como diz o autor, o seu lado masculino. Na Geni e o Zepelim traz a
situação de uma mulher a Geni, destacando a forma que ela leva a vida e as
consequências que resultam disso. Nessa música, mostra também a situação da
mulher como um objeto que pode ser usado e explorado. O autor apresenta a
situação da mulher em determinado contexto, tendo um modo diferente ao falar
sobre o uso do corpo, a objetificação e a condenação pela sociedade. A quarta e
última música, Mar e lua, o autor Chico Buarque nos fala de um romance
entre duas mulheres, provavelmente um amor reprimido, quase impossível de ser
vivido e que termina numa tragédia, relatada nos versos finais da música.
Fonte: SEE-MG. Acesse: https://estudeemcasa.educacao.mg.gov.br/




